A história do navegador cego que decidiu cruzar o Pacífico sozinho em veleiro: ‘o barco é mais seguro para mim do que a terra’


Navegador, que perdeu a visão aos 16 anos, decide cruzar o Oceano Pacífico de veleiro, aos 59 anos
Para a maioria das pessoas, contemplar o mar é uma experiência guiada pelos olhos. Para o japonês Hiro Iwamoto, de 59 anos, navegar depende de outros sentidos. Cego desde a adolescência, ele prepara um dos maiores desafios da vida: cruzar sozinho o Oceano Pacífico, em uma travessia de cerca de 14 mil quilômetros entre San Diego, na Califórnia, e o Japão.
Hiro perdeu a visão completamente aos 16 anos. Os médicos nunca conseguiram explicar a causa da cegueira. No início, conta ele, aceitar a nova realidade foi difícil. Mas um sonho mudou a forma como encarava a própria condição.
Segundo Hiro, no sonho, um tio dizia que havia um propósito para sua cegueira: inspirar outras pessoas por meio dos desafios que enfrentaria. Ao acordar, decidiu transformar a vida. O primeiro passo foi aprender a sair de casa usando uma bengala. Depois, vieram desafios cada vez maiores, como escalar a montanha mais alta do Japão.
No topo da montanha, enquanto o guia descrevia o nascer do sol, desconhecidos se aproximaram para dizer que ele os inspirava. Foi nesse momento que Hiro acreditou que a mensagem do sonho fazia sentido.
Anos depois, encontrou no mar um novo propósito.
Em 2002, incentivado pela família, começou a aprender a velejar. Foi ali que descobriu uma sensação de liberdade que não encontrava em terra firme.
“Comecei a pensar: por que não tentar cruzar o maior oceano do mundo?”, relembra.
O sonho ganhou forma em 2013. Ao lado do apresentador japonês Jiro Shinbo, Hiro iniciou a primeira travessia entre os Estados Unidos e o Japão. Mas, no sétimo dia de viagem, o veleiro colidiu com uma baleia-azul, o maior animal do planeta.
A embarcação sofreu uma grande rachadura e começou a afundar. Os dois permaneceram à deriva por cerca de 11 horas até serem resgatados pela Marinha japonesa.
Apesar de escapar sem ferimentos graves, Hiro diz que as marcas psicológicas foram profundas.
“Fisicamente fiquei bem, mas mentalmente estava destruído. Muitas pessoas diziam nas redes sociais que meu sonho era estúpido e que o lugar mais seguro para mim era ficar em casa”, lembra.
Mesmo assim, ele não desistiu.
Em 2019, voltou ao mar. Dessa vez, navegou o mesmo percurso acompanhado do amigo Doug Smith e concluiu a travessia em 55 dias. Para se orientar, desenvolveu estratégias que vão muito além da visão.
Durante o dia, sente a posição do sol no rosto para identificar a direção. À noite, faz o mesmo antes do pôr do sol. Também utiliza uma bússola com comando de voz e um aplicativo adaptado, desenvolvido especialmente para ele, que informa dados como velocidade do vento e recebeu o nome de sua filha, Lina.
Agora, Hiro se prepara para um feito ainda mais ambicioso.
Em fevereiro de 2027, pretende repetir a travessia, mas completamente sozinho. O desafio exigirá preparo físico, resistência emocional e capacidade para enfrentar tempestades, ventos fortes e situações inesperadas em alto-mar.
No barco, diz ele, sente-se mais seguro do que em terra.
“O sol está lá. Eu não vejo, mas sinto o calor. Para velejar, você não precisa da visão. O barco é mais seguro para mim do que a terra. Em terra, preciso de um guia. No barco, não”, afirma.
Questionado sobre o que o motiva a continuar enfrentando desafios, Hiro resume a filosofia que guia sua trajetória.
“As pessoas dizem que não posso fazer isso porque sou cego ou velho demais. É fácil encontrar uma razão para não fazer. Por isso é tão importante continuar se desafiando.”
E conclui:
“Coragem não é a ausência do medo. É a escolha de seguir em frente, apesar dele.”
Navegador, que perdeu a visão aos 16 anos, decide cruzar o Oceano Pacífico de veleiro, aos 59 anos
Reprodução/TV Globo
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