Ceuta começa a enterrar imigrantes não identificados; túmulos receberam apenas números

Imigrantes que morreram ao tentar entrar em Ceuta são enterrados em 21 de agosto de 2026.
Antonio Sempere/AP
A cidade espanhola de Ceuta começou a enterrar os imigrantes que morreram tentando entrar no território, há três semanas. Os mortos, cujas identidades são desconhecidas, estavam entre os mais de 90 imigrantes que perderam a vida durante a mais mortal crise de fronteira da Espanha.
Impulsionadas por desinformação, pobreza e falta de oportunidades, mais de 72 mil pessoas chegaram a Ceuta no final de julho.
👉 Ceuta é um território espanhol separado geograficamente do restante da Espanha. A cidade fica no Norte da África e faz fronteira com o Marrocos. Veja mapa ao final desta reportagem.
Veja momento em que imigrantes do Marrocos chegam a nado em Ceuta, cidade da Espanha
Corpos sem identificação
Ceuta enterrou 18 imigrantes em um cemitério muçulmano na sexta-feira (21). Durante o sepultamento, um líder religioso islâmico fez orações e entoou cânticos religiosos. A expectativa é que mais migrantes sejam enterrados em breve.
A ONG Associação Marroquina de Direitos Humanos pediu que os enterros em Ceuta fossem suspensos até que todos os esforços possíveis fossem feitos para identificar os corpos e repatriá-los ao Marrocos, país de origem da maioria dos imigrantes que realizaram a travessia.
Muitos dos que morreram se afogaram ou foram mortos em um tumulto durante a tentativa de atravessar uma barreira próxima a um posto de controle fronteiriço.
Um homem, acompanhado por agentes funerários, reza sobre os corpos de migrantes que morreram ao tentar cruzar de Marrocos para o enclave espanhol de Ceuta, sexta-feira, 21 de agosto de 2026
AP/Antonio Sempere
Em comunicado, a ONG pediu ao Ministério das Relações Exteriores do Marrocos que garantisse que “os corpos sejam devolvidos às famílias para que possam ser enterrados com dignidade”.
A entidade classificou os enterros em Ceuta como uma “nova tragédia humana”, somando-se ao “desastre do deslocamento forçado e das pessoas desaparecidas”.
Um porta-voz do governo local de Ceuta afirmou na semana passada que a documentação para repatriação dos corpos estava concluída, mas que o governo marroquino ainda não a havia aceitado.
O Ministério das Relações Exteriores do Marrocos não respondeu às perguntas da agência de notícias Associated Press sobre os enterros iniciados nesta sexta-feira em Ceuta nem às alegações de que estaria bloqueando a repatriação de corpos de migrantes identificados.
Ainda há imigrantes em Ceuta
Imigrantes que cruzaram do Marrocos para Ceuta voltam a praia, um dia após serem expulsos da área, e são escoltados pela polícia.
Antonio Sempere/AP
Embora a maioria das pessoas que entrou em Ceuta no fim de julho tenha retornado quase imediatamente ao Marrocos, autoridades locais afirmam que até 10 mil migrantes, incluindo mulheres e crianças, ainda podem estar na pequena cidade espanhola. O governo central da Espanha cita um número menor, em torno de 5 mil pessoas.
Autoridades marroquinas e espanholas atribuíram a imigração em massa a rumores espalhados nas redes sociais e a redes de tráfico de pessoas. Já os próprios imigrantes apontaram o desemprego e os baixos salários como motivos para empreender a viagem.
Todos os enterrados na sexta-feira eram homens, afirmou Said Mohammed, gerente interino do cemitério. Os túmulos foram identificados com pedras numeradas, caso familiares venham a reivindicar os corpos no futuro.
Segundo a tradição islâmica, o corpo é colocado na sepultura voltado para Meca, como ocorreu com os migrantes enterrados em Ceuta.
Veja mais FOTOS e MAPA abaixo:
Migrantes que cruzaram de Marrocos para Ceuta retornam a praia um dia após serem expulsos da área e são escoltados pela polícia espanhola, em 21 de agosto de 2026.
Antonio Sempere/AP
Imigrantes que cruzaram do Marrocos para Ceuta voltam a praia, um dia após serem expulsos.
Antonio Sempere/AP
Imigrantes que morreram ao tentar entrar em Ceuta são enterrados em 21 de agosto de 2026.
Antonio Sempere/AP
Mapa mostra localizações de Ceuta e Melilla, exclaves espanhóis na África, em meio a crise migratória em julho de 2026.
Dhara Pereira e Lara Bernardino/Arte g1
Ceuta
AP/Antonio Sempere
