40 mortos por afogamento na França: o que é o ‘domo de calor’ que está causando temperaturas extremas na Europa

40 mortos por afogamento na França: o que é o ‘domo de calor’ que está causando temperaturas extremas na Europa
Getty Images
Países da Europa Ocidental e Central — entre eles Espanha, França e Reino Unido — emitiram alertas vermelhos devido à previsão de intensificação, nos próximos dias, de uma onda de calor com temperaturas que podem ultrapassar os 40 °C.
Mais da metade das regiões da França está atualmente sob o nível máximo de alerta meteorológico e, por causa disso, centenas de escolas foram fechadas.
O país teve o dia mais quente já registrado (44,3 °C em Pissos, Landes) em sua história nesta terça-feira (23/6), mesmo dia em que foi confirmada a morte por afogamento de pelo menos 40 pessoas que nadavam em áreas sem supervisão na França nos últimos dias.
“Não é algo que deva ser levado na brincadeira: nadar em áreas sem supervisão durante uma onda de calor”, declarou à rádio francesa a ministra dos Esportes e da Juventude, Marina Ferrari.
Ferrari afirmou que muitas pessoas tentaram se refrescar em rios e canais sem levar em conta os riscos.
Entre as vítimas está uma menina de 13 anos que havia ido com a família ao rio Sena, na região de Fontaine-le-Port, no domingo (21/6) à tarde, apesar de não saber nadar.
Várias pessoas também se afogaram na Alemanha, onde as temperaturas devem alcançar até 40 °C nas regiões oeste e sudoeste até o final da semana.
Na Espanha, a Agência Estatal de Meteorologia (Aemet) alertou para temperaturas “extremamente altas” para a época — entre cinco e dez graus acima do habitual —, com algumas áreas podendo atingir 44 °C.
Foi emitido alerta vermelho no País Basco, onde se espera que as máximas em San Sebastián cheguem a 40 °C, quase o dobro da média para esta época do ano.
Entenda por que Europa está enfrentando onda de calor intensa
O serviço meteorológico do Reino Unido (Met Office) emitiu um raro alerta vermelho de calor para quarta e quinta-feira em partes da Inglaterra e do País de Gales, diante de previsões que indicam temperaturas de até 38 °C em algumas regiões.
Autoridades da Itália, Suíça e Luxemburgo também emitiram alertas vermelhos semelhantes.
A causa imediata desse aumento de temperatura é um ‘domo de calor’: uma massa de ar quente que se desloca para o norte a partir do Saara e fica ‘estagnada’ sobre a Europa, prendendo o ar quente em seu interior.
Essa massa é alimentada por um potente sistema de alta pressão conhecido como o “anticiclone africano”.
O que é o ‘domo de calor’ que está causando temperaturas extremas na Europa
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Calor mais intenso e duradouro
Os cientistas ressaltam, no entanto, que não há dúvida de que a recorrência das ondas de calor é um indicador das mudanças climáticas provocadas pelo ser humano, resultado em grande parte da queima de carvão, petróleo e gás.
A Météo-France destaca que, das 51 ondas de calor registradas na França desde 1947, 34 ocorreram a partir do ano 2000 e 26 desde 2011.
O Met Office, do Reino Unido, estima que o calor extremo observado durante as ondas de calor recentes é dez vezes mais provável atualmente devido às mudanças climáticas, e que esses eventos não são apenas mais intensos, mas também mais duradouros.
Os cientistas ressaltam, no entanto, que não há dúvida de que a recorrência das ondas de calor é um indicador das mudanças climáticas provocadas pelo ser humano, resultado em grande parte da queima de carvão, petróleo e gás.
A Météo-France destaca que, das 51 ondas de calor registradas na França desde 1947, 34 ocorreram a partir do ano 2000 e 26 desde 2011.
O Met Office, do Reino Unido, estima que o calor extremo observado durante as ondas de calor recentes é dez vezes mais provável hoje devido às mudanças climáticas, e que esses eventos não são apenas mais intensos, mas também mais duradouros.
Na segunda-feira, durante a Semana de Moda de Milão, as temperaturas chegaram a 37°C
Reuters
Nos últimos 50 anos, a duração dos períodos de calor quase dobrou.
“O aquecimento global provocado pelo ser humano tem servido como uma plataforma de lançamento para esse fenômeno, carregando a atmosfera com calor adicional e fazendo com que as temperaturas extremas sejam muito mais intensas do que teriam sido no passado”, explica Akshay Deoras, pesquisador do Centro Nacional de Ciências Atmosféricas da Universidade de Reading, na Inglaterra.
Mas o fator determinante desse fenômeno, acrescenta o pesquisador, é um “domo de calor”.
Onda de calor atinge vários países da Europa
O que é um domo de calor
“Imagine o domo de calor como uma enorme tampa atmosférica que impede a formação de nuvens e permite que um sol implacável aqueça o solo dia após dia”, explica Deoras.
“Ao mesmo tempo, o ar que desce sob o sistema de alta pressão é comprimido e aquecido, de forma muito semelhante ao que acontece com o ar dentro de uma bomba de bicicleta quando ela é acionada.”
Trata-se essencialmente de uma massa de ar quente que permanece teimosamente presa em um mesmo lugar, aprisionando aqueles que estão ao nível do solo em uma onda de calor prolongada.
Os cientistas acreditam que esses eventos são desencadeados por uma mudança brusca nas temperaturas dos oceanos.
Por sua vez, o aumento da temperatura da água aquece o ar, e os ventos empurram esse calor em direção à terra.
Assim que o ar quente chega ao continente, ele fica preso por um sistema de alta pressão, formando uma cúpula cercada por sistemas de baixa pressão dos dois lados.
A alta pressão aquece ainda mais a coluna de ar ao comprimí-la, atuando efetivamente como um domo.
Mudança climática: o que está por vir
Nos últimos anos, essas ondas de calor recordes ocorreram em um mundo que, em média, está cerca de 1,4 °C mais quente do que no final do século XIX, em grande parte devido às atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis.
No entanto, de acordo com as atuais políticas climáticas adotadas pelos governos ao redor do mundo, o aquecimento global pode se aproximar de 3 °C até o fim deste século.
Isso inevitavelmente levará a novos recordes de temperatura, criando desafios especialmente para países como Reino Unido e Suíça, cujas infraestruturas e edificações não foram projetadas para suportar calor extremo.
“O clima em que vivemos hoje simplesmente não é o mesmo em que crescemos. Nossos prédios e infraestruturas estão lamentavelmente despreparados para o que está por vir”, alerta Friederike Otto, professora de ciências climáticas do Imperial College London.
Até 1990, o recorde de temperatura do Reino Unido em qualquer mês do ano era de 36,7 °C, registrado em 1911.
Desde então, essa marca foi superada diversas vezes e atualmente o recorde nacional é de 40,3 °C, registrado em julho de 2022.
Com o avanço das mudanças climáticas, temperaturas ainda mais elevadas poderão se tornar uma realidade, alerta Richard Betts, chefe de pesquisa sobre impactos climáticos do Met Office e professor da Universidade de Exeter.
“Enquanto não reduzirmos as emissões globais de carbono a zero líquido, continuaremos aquecendo o planeta e novos recordes de temperatura continuarão sendo quebrados”, afirmou.
